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18/08/2020

Indústria - Novos papéis para o papel

Cinque Terre

A pandemia do coronavírus acelerou mudanças em vários setores. A cadeia produtiva do papel é um deles. Da indústria ao consumidor final, o papel deixou de ser coadjuvante para ganhar relevância 

Neste exato momento em que o mundo supervaloriza o digital, você está lendo uma reportagem de uma revista impressa em papel couchê 115 g. E o papel é a aposta das grandes marcas. Há 200 anos no mercado, em breve, o uísque Johnnie Walker estará disponível em garrafas de papel. Outro exemplo é a cervejaria dinamarquesa Carlsberg, que anunciou dois protótipos da mesma solução. 

Pesquisa realizada no mês de março deste ano pela Quorum Brasil, a pedido da organização global Two Sides, apontou que 66% dos europeus preferem que suas compras no e-commerce sejam entregues em embalagens celulósicas. O estudo apurou também que os diferenciais do papel em relação à proteção ao meio ambiente são claramente percebidos pela indústria. As embalagens de papel e papelão são as preferidas pelos consumidores em função de atributos ligados à sustentabilidade, incluindo compostagem doméstica, apontada por 69% dos norte-americanos e 72% dos europeus por considerarem-nas melhor para o meio ambiente. “Ninguém citou, por exemplo, que a cadeia do papel destrói árvores ou qualquer crítica do gênero”, afirma Claudio Silveira, CEO da Quorum. 

Quando indagados sobre o que esperam para o futuro das embalagens, os entrevistados almejam um invólucro 100% biodegradável, resistente, fácil de reciclar, adaptável, de baixo custo e que conte com muitos fornecedores. “Os consumidores estão se tornando mais conscientes das opções disponíveis. A cultura de ‘fazer, usar, descartar’ está mudando gradualmente”, afirma Phil Riebel, presidente da Two Sides América do Norte.

Na esteira deste movimento, uma indústria inovadora, cuja tendência em nível mundial se reflete localmente, ancorada agora pela pandemia do novo coronavírus. De fato, o isolamento social mudou os hábitos da população e impactou diretamente nos negócios e nas comunidades. No Paraná, um bom termômetro está no crescimento de dois setores, segundo dados da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep): setor alimentício com alta de 6,9% este ano; e papel e celulosa, 6,5%. Um cenário positivo para a indústria de embalagens de papel, influenciada também pelo aumento do delivery.

REFLEXOS NA INDÚSTRIA
Com uma produção anual de 125 mil toneladas de papel em suas duas fábricas – em Turvo, no Paraná, e em Embu das Artes, no Estado de São Paulo –, a Ibema Papelcartão sofreu o impacto negativo da pandemia em algumas linhas e positivo em outras. “Setores como o do vestuário e de peças automotivas tiveram contração na ordem de 20%; porém, os setores de alimentos, farmacêutico e de higiene pessoal se mantiveram”, afirma o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Ibema, Fernando Sandri. A pandemia, explica, também está acelerando algumas transformações e, mesmo diante dos abalos nos mercados e cadeias globais, a Ibema lançou um novo produto mirando o mercado externo e está desenvolvendo outros cinco projetos. Na base de tudo está o papel.

SUPREMACIA DO PAPEL
A nova dinâmica do mercado e, consequentemente, da indústria, afetou diretamente as distribuidoras de papel. Em Cascavel, a Kgepel teve uma queda de 60% no faturamento em março nos segmentos dependentes do comércio e serviços promocionais. Em contrapartida, o segmento de embalagens para delivery cresceu. “Vivemos um momento peculiar. O volume de papel cartão para embalagens cresceu mais de 60% desde o começo do ano. Embora não haja muitos dados consolidados, a tendência é de aumento”, explica Vinicius Ferrari Sopelsa, gestor comercial da Kgepel.

Com mais pessoas em casa, também cresceu a demanda por papéis usados em trabalhos manuais e artesanato. “Perdemos volume em alguns segmentos, mas surpreendentemente ganhamos em outros”, diz Sopelsa. Outra mudança na sociedade pós-coronavírus e que se refletirá na indústria do papel, segundo ele, é a necessidade do registro histórico. “As pessoas começaram a ter uma percepção diferente sobre o impresso e a valorizá-lo como algo perene, que guarda informação. Há também a questão do tato, da necessidade de desconexão e da reaproximação com uma leitura menos superficial, mais profunda. Entram aí os livros e revistas impressas. Não tenho dúvidas de que a indústria do papel e todos que estão nesta cadeia produtiva vão se fortalecer”, diz. 

O PAPEL NA GRÁFICA
Alinhada a todas estas mudanças, a indústria gráfica também vem passando por transformações dia a dia. De acordo com pesquisa da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), 20,6% das gráficas passaram a atuar em outros segmentos durante a pandemia, a exemplo de embalagens, sacolas, EPI´s, máscaras, face shield e rótulos. 

Em Cascavel, a Gráfica Assoeste é uma delas. Até meados de março deste ano, no início da pandemia, 70% da produção era de impressos comerciais e promocionais e 30% de embalagens e sacolas. “Com o isolamento social e o aquecimento do serviço de delivery, principalmente de alimentos, houve uma inversão. Hoje nossa produção está em 60% em embalagens e 40% em outros materiais gráficos, como os editoriais, que também estão voltando”, afirma Gustavo Salvador, sócio proprietário da Assoeste.

Outro segmento que cresceu foi o de sacolas para lojas de vestuário. “Em apenas sete meses deste ano já superamos o volume de vendas de sacolas de 2018 e 2019”. Tanto no setor de alimentação quanto de vestuário, o perfil do cliente é o mesmo: empresas familiares de pequeno e médio porte que, por conta da Covid-19, tiveram que inovar e investir na imagem de seus produtos. “Ao desenvolvermos uma embalagem, pensamos em todos os elos da cadeia”, conclui.
 
NOVOS COMPORTAMENTOS
Logo após primeiras notícias da pandemia em nível internacional, o empresário taiwanês radicalizado brasileiro, Jory Lin, redefiniu o seu plano de negócios, migrando 100% para o delivery. Antes o serviço de entrega no Bao Story, especializado em culinária vegana asiática, representava 30% do faturamento. O novo serviço também acelerou o desenvolvimento de uma plataforma própria de delivery, o incremento de novas opções no cardápio e a busca por embalagens que mantenham a temperatura ideal e a qualidade dos alimentos. “Nossos pratos precisam ser consumidos mornos, por isso a preocupação com a logística e a embalagem certa”, diz Jory. O aumento da demanda, segundo ele, veio acompanhado de um rol de novas exigências. “As embalagens deixaram de ser coadjuvantes e ganharam mais relevância até mesmo como ferramenta de comunicação. Estamos atentos ao seu caráter sustentável e ao próprio design que deve comunicar os valores de nossa marca”.

O CAMINHO DA EMBALAGEM
Quando você pede um lanche pelo delivery não imagina o que há por trás de uma simples caixinha. Do plantio das árvores, do processamento do papel na indústria e da distribuição até chegar na indústria gráfica e ao cliente final é um longo caminho. Cada elo da cadeia produtiva tem importância fundamental.  

QUAL É A TENDÊNCIA DA INDÚSTRIA GRÁFICA?
“Se analisarmos, mesmo com toda tecnologia digital, poucas são as empresas que não irão precisar de algum material feito por gráfica em algum dia de sua existência. Os materiais produzidos pelas gráficas refletem diretamente no resultado das vendas de uma empresa, seja na divulgação ou na embalagem do produto. O mercado e o perfil dos consumidores de gráfica estão mudando. As gráficas devem estar atentas as essas mudanças e evoluirem. Gráfica não deixará de existir, desde que entenda e aceite mudanças. Veja o exemplo de uma das maiores empresas digitais do planeta, o Facebook, que lançou no Reino Unido a uma revista chamada Grow, trata-se de uma publicação com conteúdo exclusivo para empreendedores. Empresas como Airbnb, Asos, Casper, são 100% digitais e também estão apostando em publicações impressas como parte dos esforços de um marketing mais palpável e da construção de comunidades mais confiáveis. O mundo digital muitas vezes é frio e chato. Revistas são exemplos de produtos que nunca deixarão de existir, assim como embalagens, sacolas e até mesmo o simples cartão de visita. Acredito que a curto prazo embalagens plásticas deixarão de existir, o papel vai substituir o plástico em muitos setores”. Gustavo Salvador, Gráfica Assoeste

QUAL É O PAPEL DO PAPEL?
“O papel tem uma característica peculiar. Ele é feito de árvore. Cada fibra de papel que a gente usa vem de uma árvore que foi plantada para este fim. Então é um ciclo. Quando você olha para um bosque de floresta e áreas de preservação em conjunto percebe o impacto na conservação da biodiversidade. Não existe outra atividade de uso do solo com maior preservação do que a indústria florestal. Desde a sua origem até a sua reciclagem, é um setor muito motivador. É um setor que contribui para a humanidade e aí está o nosso grande desafio: avançar em embalagens que tragam este benefício ambiental. Estamos num ciclo de inovação dentro da indústria com cinco projetos em andamento. E o futuro das embalagens está no papel, pois além de proteger as mercadorias, reduzem o desperdício, são recicláveis e essenciais para minimizar os impactos ambientais”. Fernando Sandri, Ibema Papelcartão 

Fonte: 
Revista Aldeia

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